07 agosto 2011

Um lobo do mar: Athena

Athena em Lisboa. Foto Luís Miguel Correia
É frequente os navios de cruzeiro nos deixarem sem palavras por variadíssimas razões, boas razões. Os que se relacionam com a história são dos mais intensos. As companhias inglesas e holandesas são por agora as que mais "curriculum" possuem nessa matéria e que nos podem contar de forma directa, bastando para tal fazer um cruzeiro. Mas a história traz-nos surpresas, cartas fora do baralho que nos ensinam que a história dos cruzeiros e dos transportes de passageiros podem estar ligados a outras origens insuspeitas. É aqui que entra o valor das pessoas que preservam essa história. Em papel é o mais vulgar e preservável. A Classic International Cruises (Link) possuí essa história, preserva em navios, muito para além do facto de realizar cruzeiros em navios das décadas de 40, 50 e 60. A vivência de cada navio é um manancial enorme de história. É o caso do Athena, o navio mais antigo da frota mas com interiores cativantes (Link). O anterior nome do Athena foi "Caribe" e o primeiro dos 3 "Stockholm" (para fins de cruzeiros), é com esta designação que começa a história, ora vejamos, terá uma surpresa no fim:





Athena: (Stockholm)

Companhia: Classic International Cruises
Ano de construção: 1948
Revisão profunda: 1994
Tonelagem Bruta: 16.144
Comprimento: 160,1mt
Passageiros: 492 (máximo 552)
Tripulação: 300
Velocidade cruzeiro: 19 nós
Estaleiros: Götaverken - Suécia



Stockholm navegando sem proa pelos seus próprios meios


Na história do Athena, sob os mais diversos nomes, destacamos 3 fases:
Stockholm
A 3 de janeiro de 1960, o Stockholm foi vendido para o governo da Alemanha Oriental que o renomeou como "Völkerfreundschaft", tendo efectuado operações como transatlântico até 1985. Nesse ano foi transferido para uma empresa no Panamá a "Neptunas Rex Enterprises", que achou por bem reduzir o tamanho do nome para "Volker", situação de pouca duração já que no final desse mesmo ano foi colocado em Southampton. Depois passou um período como navio quartel em Oslo para requerentes de asilo na Noruega sob o nome de Fridtjof Nansen.

Völkerfreundschaft
Em 1989 o navio é rebocado para Génova, nada mais e nada menos que o porto de origem do Andrea Doria. Quando chegou pela primeira vez, a imprensa italiana chamou o "inesquecível" Stockholm como o "navio da morte" (La nave della Morte) mas os estaleiros trataram-no muito bem, afinal sabe muito bem enfrentar os tempos com vida. Foi re-construído a partir da linha d'água com um design moderno para navio de cruzeiros e renomeado como Italia I (Italia Prima) até 2001, altura em que coincidindo com viagens para Cuba passou-se a chamar Valtur Prima. Em 2002 o navio é adquirido pela Festival Cruise Line mas contínua a navegar para Cuba. Em 2005 o navio chega à Classic International Cruise e é baptizado como Athena e registado em Portugal.
Itália Prima em Agosto de 1994, perto do terminus nos trabalhos de renovação.
A 3 de dezembro de 2008, o Ms Athena foi atacado por piratas no Golfo de Aden. 29 embarcações piratas estavam em volta do navio, avistadas por um avião P3 Orion de vigilância da Marinha de Guerra Americana.  O movimento em circulos do avião levou a que alguns dos piratas decidissem fugir mas, outros mais corajosos forçaram a entrada no navio. A tripulação impediu o embarque dos piratas disparando canhões de água de alta pressão contra eles. Ninguém ficou ferido, o navio escapou sem danos e continuou a sua viagem para a Austrália.

O Stockholm, Athena nos nossos dias é amado e odiado. Pela negativa por parte dos italianos que não lhe perdoam o abalroamento ocorrido a 25 de Julho de 1956, em dia de denso nevoeiro, no "seu" Andrea Doria.  Amado por ingleses e americanos que vêem nele um navio robusto, os americanos que não se esquecem de um navio sem proa que chegou a Nova Iorque pelos seus próprios meios. Os ingleses pela sua tradição em saber apreciar navios, a história e as particularidade destes. Salientam a decisão dos suecos terem construído o Stockholm com uma proa com características de quebra-gelo para uma maior versatilidade do navio (multiusos), daí o resultado no abalroamento.

A senhora inglesa Anderson, nos seus relatos de uma longínqua viagem entre Southampton para Halifax em que seguia a bordo, conta como o navio enfrentou ondas de 12 metros (40 feets!) com ventos muito fortes e teve a melhor expressão para caracterizar o actual Athena: "Sabiamos que o navio chegava, nós é que não".

Sem comentários:

Enviar um comentário