27 janeiro 2012

Assalto ao Santa Maria: 27 e 28 de Janeiro (9)


A 27 de Janeiro de há 51 anos, o Almirante Robert L. Dennison (primeira foto), comandante da Esquadra do Atlântico dos Estados Unidos, toma a iniciativa de contactar o capitão Henrique Galvão para convencê-lo a aceitar primeiramente o almirante Allen Smith (segunda foto), como representante do governo dos EUA a bordo do Santa Maria. A missão do almirante era a de negociar o desembarque dos passageiros a bordo do paquete em algum porto da costa sul-americana.
A preferência do Departamento de Estado Norte Americano era pela costa brasileira. Suspeitava-se já pela navegação do Santa Maria que a direcção pretendida para o paquete era em direcção a África.
Galvão estava ciente que a abertura do governo americano, em considerar as suas acções como políticas, tinham transformado o seu plano desde já um sucesso. Importava colaborar sem perder a face. O arquitecto da “Operação Dulcineia” aceita a presença do representante dos EUA a bordo. O almirante Allen Smith negociará entre 27 a 31 de Janeiro com os rebeldes e o governo brasileiro. Depois do acerto com Galvão, o Departamento de Estado Norte Americano inicia negociações com o governo brasileiro de Jucelino Kubitschek de Oliveira para usar um porto brasileiro para o desembarque passageiros, na condição de que este se realize sem o apresamento do navio e a captura dos rebeldes, mantendo a palavra e o reconhecimento do seu estatuto "político". Kubitschek não se mostrava colaborante, até porque o seu mandato finalizava dentro de poucos dias.

Desta forma se justifica o prolongamento das negociações, do pairar do Santa Maria em água internacionais ao largo de Recife, aguardando pela subida ao poder do novo presidente do Brasil a 1 de Fevereiro, Jânio Quadros. A bordo, qualquer acção, deslocação ou apreensão facial era acompanhada por todos com trocas de olhares. Estavam cientes que aqueles eram os momentos da decisão e do sucesso. 
Em cima, na primeira foto, os rebeldes ouvem atentamente as instruções do seu capitão Henrique Galvão. Em baixo e já na costa brasileira, o espanhol José Junquera acalma o único murmúrio da tripulação relativo às instruções recebidas.
Entretanto, a popularidade de Galvão cresce na mesma razão do número de mensagens via rádio dirigidas à opinião pública americana. Os dias a "pairar" servem para instruir a opinião pública sobre o "belicismo verbal" contra a ditadura portuguesa, apelando à não intervenção de países terceiros e assegurando que apesar da acção tomada com Santa Maria não tinha intenções "piratas" ou lesivas aos passageiros. Apesar do risco de não ser interpretado como desejava, o assalto ao Santa Maria tal como planeado, tinha sido inovador. Chamou a atenção da opinião pública e serviu para passar a mensagem. A amplitude mediática que o caso tomou reverteu as teses de Oliveira Salazar que começava a perder força na cena mundial. Após a natural condenação inicial do assalto ao Santa Maria, sucede uma leitura politica mais ponderada sobre os acontecimentos e a observação do seu alcance na cena mundial, sobretudo no contexto das colónias. Os movimentos anti-ditatoriais davam início, pouco tempo depois, à guerra colonial portuguesa.

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