20 janeiro 2012

Assalto ao Santa Maria: precedentes (1)

Damos início ao acompanhamento, por alguns dias, das acções que levaram o Santa Maria a ganhar notoriedade por entre todos os paquetes portugueses na era de ouro da navegação marítima de passageiros em Portugal, como palco de um jogo político. O Santa Maria foi alvo de uma acção que na altura parecia fruto de terroristas na versão do regime mas que a história se encarregou de mostrar que afinal eram acções de homens lúcidos em denúncia pública mundial. Criaram um facto na tentativa de evitar um agudizar da opressão e de políticas extremadas no seu país. Queriam fazer cair um regime descredibilizando. Queriam trazer o equilíbrio social a um povo cansado e perseguido que do outro lado enfrentava na surdina alguém que começou como salvador da pátria, em tempos difíceis, mas que se cristalizou no poder de forma doentia. Oliveira Salazar foi aquele que tirou o país do caos quando não havia esperança nos políticos e o país definhava na pobreza, deu-lhe um rumo mas, também foi aquele que não soube dar a maioridade ao seu povo, oprimindo e perseguindo aqueles que tinham uma opinião diferente. Quando existe um silêncio de resignação é preciso entusiasmar com verdade. Quando o entusiasmo toma conta da sociedade é necessário lhe transferir responsabilidade e ouvir as novas ideias. Isso não sucedeu e nem sempre o melhor para uma era é bom para outra.
A possibilidade de ir a votos, é em teoria para escolher os melhores para cada momento. Manipular convicto que é o único com razão interfere na selecção natural. Ela existe no seio das sociedades tal como na natureza, há que lhe dar lugar porque é impossível manietá-la eternamente. Oliveira Salazar foi aquele que evitou a todo custo a entrada de Portugal na Segunda Grande Guerra, num tremendo jogo de cintura mas que depois lhe trouxe a guerra colonial onde muitos do seu povo faleceram em combate, confundindo persistência com teimosia. Nunca se ganha sem união dentro de portas. Oliveira Salazar meteu-se em guerra quando já estava em "guerra" com o seu povo. Lembremo-nos de como era o país de então e de como chegou ao poder este incontornável personagem da história ainda recente de Portugal:

Depois do deslumbramento da ordem e do progresso, qual mensagem da bandeira brasileira, veio algum bem estar comedido e informado. Ao povo chegou a capacidade de questionar fruto de uma auto-suficiência económica mas sobretudo da formação e da comparação. E porque não de outra maneira? Quantas mais perguntas surgiam mais os seus emissores eram reprimidos. O poder lidava mal com a pluralidade das opiniões, catalogava a seu belprazer não se importando com a justeza da sua acção mas com a defesa de um regime. Quem não está comigo está certamente contra. Havia que controlar todas estas ousadias:

Quanto mais se agudizam as acções de repressão do regime mais ânsia nutre este por acções de propaganda. Aproveitaram distintas visitas para a credibilização do regime. Manipularam eleições para demonstrar que o povo está com o líder de sempre. É cada vez mais difícil conseguir líderes de combate político em Portugal, ou são "silenciados" ou "emigram". Quando estes surgem, o povo agarra-se a eles novamente em surdina. Quem arrisca a liderança de um novo projecto para Portugal sabe que de um momento para outro pode ficar sem "pé" porque a opressão cala e quem cala permite a permanência do poder. Os novos lideres queima-se e desaparecem. Mas a regra é quebrada:

Ganhamos um dos personagens antagonistas ao sistema que viria a ter influência no assalto ao Santa Maria: Humberto Delgado.
Outro dos personagens, provavelmente o mais conhecido, é capitão  Henrique Carlos Malta Galvão, um militar português nascido em 1895 e que faleceu em 1970. Foi administrador nas colónias e deputado à Assembleia Nacional durante o Estado Novo. Por volta de 1950, porém, afastou-se do regime e das suas prevaricações. Como já salientamos, ser líder contrário carecia de silenciamento por parte do regime. Henrique Galvão foi preso em 1952, acusado de acções conspirativas. Evadiu-se em 1959. Comandou operações armadas contra o regime, uma delas foi o sequestro do paquete "Santa Maria" que aqui vamos acompanhar ao longo de alguns dias. A acção, em 1961, teve forte repercussão internacional.
Henrique Galvão produziu várias obras literárias, como Em Terra de Pretos. Crónicas d'Angola (1929), Revolução (1931), Contos Africanos (1934), Impala. Romance dos Bichos do Mato (1946), Pele (1958), entre muitos outros. Recebeu o 1º Prémio de Literatura Colonial por O Velo d'Oiro, e o Prémio de Literatura Colonial por Terras do Feitiço O Sol dos Trópicos.

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