17 março 2012

Reflexões ao caso Costa Concordia no Seatrade de Miami

A sessão plenária de abertura do 28ª Congresso Anual de Cruzeiros de Miami decorreu na passada terça-feira, onde várias questões relacionadas com a indústria de cruzeiros foram abordadas pelos
principais directores executivos do sector.
Desde Março, a indústria de cruzeiros atingiu valores recorde no transporte de passageiros, navegou entre mais de 120 países, estabeleceu novas rotas, implementou as mais recentes tecnologias a bordo e construiu paquetes inovadores. O futuro não poderia ser mais promissor. Contudo, estes dados não alteram o facto do acidente do Costa Concordia estar fresco na memória das pessoas relacionadas com o sector. Daniel Read, director do grupo promotor da Conferência Anual de Cruzeiros
de Miami, iniciou a sessão State of the Industry da passada terça-feira com um
sombrio reconhecimento do acontecimento. “Os meses recentes têm-se revelado um desafio”, disse, moderando as suas reflexões na esperança de um contínuo crescimento.
O orador principal, Howard Frank, vice-presidente e director executivo de operações da Carnival Corp. & plc e presidente da CLIA (Associação Internacional das Companhias de Cruzeiros), afirmou que a tragédia do Costa Concordia afectou não apenas a própria companhia mas toda a indústria em
si. Publicamente, expressou o seu pesar aos familiares e amigos das vítimas, alguns dos quais fez questão de visitar pessoalmente, e homenageou os esforços heróicos da tripulação do Concordia e habitantes da ilha de Giglio, que disponibilizaram as suas casas aos passageiros naufragados. De igual forma, agradeceu a todas as pessoas ligadas à indústria de cruzeiros pela sua
confiança e apoio.
Numa nota pessoal, Howard Frank contou que sempre que visita um navio faz questão de ostentar na sua lapela o pin referente à companhia desse mesmo navio. Todavia, nestes últimos dois meses tem ostentado apenas o pin da Costa, uma vez que afiança que não poderia estar mais orgulhoso por esta
companhia e que acredita que voltará a se erguer mais forte do que nunca. Este orador abordou igualmente a resposta mundial à tragédia do Costa Concordia, mencionando que a segurança é a principal prioridade da CLIA. Howard Frank assegurou que a indústria sofrerá uma revisão minuciosa dos seus procedimentos de segurança, da qual resultou até ao momento a reunião  de todos os passageiros antes da partida. Esta nova política transcende as actuais regulações legais, mas tem sido apoiada, voluntariamente, pelos membros da CLIA, do Conselho Europeu de Cruzeiros e da Associação de Passageiros de Cruzeiros.
O palestrante acrescentou ainda que a indústria tem todos os motivos para esperar o melhor do futuro. Em 2011 cerca de 16 milhões de passageiros, a nível mundial, fizeram cruzeiros, um recorde para esta indústria. Este é um número que H. Frank espera que possa vir a crescer. No entanto, relembrou aos trabalhadores deste sector que para além do privilégio de entreter os passageiros, têm também a responsabilidade de assegurar um ambiente seguro para todos.
Este ano, o debate State of the Industry apostou num formato diferente, uma vez que se baseou em discussões abertas protagonizadas pelos directores executivos das companhias presentes, ao invés das habituais apresentações individuais. Os temas e questões submetidos à moderadora do debate, Christine Duffy, presidente da Associação Internacional de Companhias de Cruzeiro, abrangiam um variado leque de conteúdos que foram, ao longo de toda a sessão, debatidos pelos seis executivos das companhias de cruzeiros representadas.
Tendo em conta o incidente do Costa Concordia, no passado mês de Janeiro, os regulamentos e políticas de segurança da indústria de cruzeiros tiveram o destaque inicial. Adam Goldstein, presidente e director executivo da Royal Caribbean International, discursou sobre a manutenção de pontes e da contínua necessidade de aperfeiçoar as práticas de segurança, mesmo com o excelente nível de segurança que o sector já usufrui. A Royal Caribbean implementou, inclusive, um novo programa de treinos em Fort Lauderdale, na Florida, para melhorar as travessias em pontes e técnicas de segurança.
Stein Kruse, presidente e director executivo da Holland America Line, concordou com Goldstein e afirmou que a indústria é, na sua essência, extraordinariamente segura. Todavia, acredita que poder-se-á empenhar mais esforços em termos de comunicação e elucidação dos procedimentos de
segurança a bordo. “Toda a nossa atenção está concentrada na prevenção”, disse Gerald Cahill,
presidente e director executivo da Carnival Cruises Lines. “No entanto, por vezes as coisas podem correr menos bem, pelo que há a necessidade de possuir um plano flexível bem esquematizado”.
O plano da Carnival inclui a nomeação e formação de determinados indivíduos para desempenhar determinados procedimentos em caso de emergência, tanto dentro dos navios como fora dos mesmos.
Os passageiros Europeus são os maiores clientes da MSC Cruises, que confia na sua capacidade de comunicar em várias línguas em caso de emergência, segundo palavras do seu director executivo Pierfrancesco Vago. A companhia dispõe de vídeos instrutivos nas cabines, folhetos, placas nas portas em diversas línguas e elementos da tripulação preparados para comunicar com os
passageiros. Todos os palestrantes concordaram que as tripulações estão bem preparadas em termos de resposta a emergências e situações de crise, fruto dos exercícios e treinos regulares. Kevin Sheeban, presidente e director executivo da Norwegian Cruise Line, sugeriu que seria uma mais-valia para os passageiros que as tripulações estivessem claramente identificadas.
A discussão voltou-se em seguida para a saúde pública, um tema que continua a assombrar a indústria devido à facilidade de propagação de surtos de vírus. No entanto, Dan Hanrahan, presidente e director executivo da Celebrity Cruises, rapidamente relembrou que a U.S. Public Health é um grande parceiro da indústria a quem compete a tarefa de zelar pelas práticas de saúde a bordo
dos navios.
A responsabilidade social das companhias também desempenha um papel importante, asseguraram. Cahill chamou a atenção para o facto de que quando um desastre natural atinge um porto, as companhias de cruzeiros são, ponorma, as primeiras a responder aos apelos. Goldstein acrescentou que a indústria tem por hábito assistir nos processos de recuperação dos destinos vitimados – como foi o caso da sua companhia ao construir uma escola no Haiti – muito depois da situação ser o centro das notícias.
Todavia, a responsabilidade social vai muito além das ajudas em caso de catástrofe. Sheehan, que também é presidente da Associação de Cruzeiros da Florida – Caraíbas, falou sobre a capacidade desta organização em angariar fundos para a doação de ofertas de Natal a crianças necessitadas. A
responsabilidade social inclui ainda a construção de infra-estruturas nos portos, planeamento em termos de entretenimento dos passageiros em terra, assim como algumas preocupações ambientais.
Goldstein reuniu recentemente com a Agência de Protecção Ambiental com o
intuito de discutir os regulamentos que entram em vigor a 1 de Agosto de 2012 e dizem respeito ao controlo de emissões. As novas leis exigem combustíveis com um menor teor de enxofre, diz Goldstein, que espera que as reuniões planeadas ajudem a agência a compreender como tomam as companhias de cruzeiros as suas decisões. Kruse tem também agendadas reuniões com a Agência de Protecção Ambiental para dar continuidade às conversações e espera que a agência possa compreender que as companhias possuem activos que podem ser facilmente relocalizados, situação que seria devastadora para os portos mais pequenos.
Por fim, o debate abordou as receitas. Cahill afirmou que as reservas se encontram em alta e não desanimadoras, como alguns querem transparecer.
Na verdade, a companhia possui mais reservas do que em período homologo do ano passado. Hanrahan disse que a Celebrity tem por norma a realização de estudos de mercado, e o número de clientes renitentes, ou pessoas que jamais realizarão cruzeiros, não se alterou, apesar dos recentes
acontecimentos. A Norwegian Cruise Line, assegurou Sheehan, não constatou qualquer aumento nos cancelamentos desde o incidente do Concordia.

Todos os directores executivos aplaudiram a comunidade dos agentes de viagens pelo seu incessante apoio.

1 comentário:

  1. Ninguém o abordaria melhor, parabéns Cruzeiros!

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