10 abril 2012

Portugueses na viagem do Titanic

 A agência noticiosa Lusa fez uma reportagem com descendentes de vitimas do desastre de há 100 anos no Titanic. Um texto que transcrevemos e que se refere a familiares de passageiros portugueses nascidos no concelho da Calheta, ilha da Madeira.
"É um icebergue de emoções o que vive por estes dias Maria Jardim Figueira, uma das guardiãs das memórias do naufrágio do Titanic onde seguia o avô, madeirense de 21 anos natural do concelho da Calheta. "A gente queria conhecer o avô e não se conheceu", conta, entre lágrimas, Maria, de 82 anos, que guarda, sem nunca o ter visto, nem em fotografia, esta imagem do avô, José Neto Jardim: "Tinha um metro e sessenta, cabelo preto, olhos castanhos e barba preta. O resto não sei."
José Neto Jardim e mais dois madeirenses, todos agricultores, um do concelho da Calheta, outro da Ponta do Sol, eram três dos portugueses que seguiam a bordo do Titanic em busca do "eldorado" do outro lado do Atlântico.
À Calheta, a notícia do naufrágio, há cem anos, chegou, primeiro, na forma de premonição, quando a mulher de José Neto Jardim, que carregava um bebé de nove meses ao colo, mãe de Maria Jardim Figueira, bordava acompanhada de outras aldeãs. "Quando a minha avó ia exatamente pôr a agulha no bordado caiu-lhe em cima do dedo uma lapa do mar viva", explica Maria, referindo que a inusitada situação foi rapidamente disfarçada: "Foi uma gaivota que veio do mar para a serra e trouxe isso nas patinhas e caiu-te aí", alguém disse. Mas não tardaria muito a confirmação do presságio.
"Chegou um telegrama para a Marconi e veio o regedor da freguesia dizer 'olha Maria o Titanic afundou, o teu marido morreu'", adianta quem, desde tenra idade, foi "gravando" as conversas da avó e da mãe.
Uma delas dá conta que, pouco depois do embarque de José Neto Jardim, no Funchal, rumo a Southampton, Inglaterra, de onde zarpou o Titanic, a sua família foi ao fotógrafo para tirar o "retrato" que lhe enviaria para os Estados Unidos da América. A fotografia nunca saiu da Madeira, José Neto Jardim nunca encontrou o sonho americano.
O mesmo sucedeu com o bisavô de Bernardete Moura, de 52 anos, também da Calheta.
Na "mala de cartão" de Manuel Gonçalves Estanislau, de 37 anos, havia um posto de trabalho numa fábrica de algodão norte-americana e a esperança de dar uma vida melhor à mulher e aos filhos que ficaram na ilha. O seu passaporte era o n. 580, de março de 2012, segundo o Arquivo Regional da Madeira.
Bernardete coleciona as memórias que se seguiram ao naufrágio, transmitidas pela avó e pela mãe, assim como outros materiais: não lhe faltam fotocópias da lista de passageiros, onde surge o nome dos madeirenses, viajantes de terceira classe, ou do telegrama com o pedido de socorro que se seguiu ao embate no icebergue.
"A minha avó contou que souberam através da polícia da Calheta, que veio a casa informar, depois de ter recebido um telegrama", refere Bernardete.
Já o que aconteceu a Domingos Fernandes Coelho, solteiro de 20 anos, foi uma incógnita para os mais próximos durante quase um século. "A família não falava em nada, não sabia", diz o sobrinho-neto, Adelino Fernandes Coelho, de 68 anos, explicando que a notícia, que parecia estar submersa nas profundezas do Atlântico, emergiu pelas mãos de um jornalista quando passaram 90 anos do naufrágio.
Nas ondas de informação que se seguiram haveria de saber que os pais de Domingos Fernandes Coelho receberam uma indemnização, assim como os familiares das restantes vítimas mortais madeirenses, cujos corpos, se resgatados nunca foram identificados, com valores entre 60 a 150 libras.
Adelino Coelho admite que foi do seu avô, já radicado na América mas de quem nunca se soube mais nada, que partiu o convite para a deslocação à terra do Tio Sam do irmão, que, segundo a "Encyclopedia Titanica", disponível na internet, tinha o bilhete 3101307, adquirido por cerca de sete libras.
O resto da história escreve-se com as imagens do filme "Titanic", de James Cameron, que a família tem bem vivas: da "pedra de gelo" que "rebentou com o barco" e "aquela gente a fugir, a gritar, a fugir da morte".
"Então não se fica com pena a ver um familiar naquelas agonias?", pergunta Maria Angela Coelho, de 67 anos, mulher de Adelino, casal com 11 filhos, sete emigrados, que remata: "É triste quem caminha e não chega ao seu destino"."

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