13 outubro 2012

Funchal, um bom nome para um novo navio de passageiros para as ilhas

A reposição da exposição "Funchal, 50 anos" promovida pelo Clube de Entusiastas de Navios e que a partir deste sábado volta a ser exposta ao público, desta vez na sede do Clube Naval do Funchal, na Quinta Calaça, suscitou-me uma nova reflexão. Infelizmente o paquete Funchal, de 1961, continua imobilizado no Tejo, desde 2010, interrompidos os trabalhos de remodelação, por falta de financiamento, que o iriam fazer renascer após nova revisão das regras da SOLAS, desta vez de 2010.
Infelizmente também, os arquipélagos da Madeira e dos Açores continuam a figurar no panorama europeu como as únicas ilhas sem serviço marítimo de passageiros com o seu continente, apesar da experiência canariana do armador Armas na linha Canárias-Madeira-Portimão, de Junho 2008 a Janeiro de 2012. Infelizmente, voltamos a ter de nos habituar a viajar apenas de avião e as cargas e automóveis a terem de ser apenas transportadas apenas em navios de carga. Recordar o paquete Funchal, como bem faz o CEN, deve ser sobretudo recordar uma época de apogeu na marinha mercante portuguesa com uma frota que dignificava o país, e um sentir da necessidade de melhor ligar o continente às então denominadas ilhas adjacentes.
A encomenda do paquete Funchal traduzia uma preocupação do Estado Novo em garantir, ao lado da Empresa Insulana de Navegação, do grupo Bensaúde, um serviço moderno, de qualidade e com uma velocidade que permitia uma viagem entre Lisboa e o Funchal em cerca de 24 horas. Logicamente que em 1961 a Madeira ainda não disponha de aeroporto (aconteceu em 1964), a aviação comercial ainda fazia os seus primeiros voos e as ligações marítimas pareciam não estar ameaçadas. Nem nunca deveriam ter sido ameaçadas. Em países e sociedades modernas (e não só), os transportes aéreos, marítimos e terrestres coexistem uns com os outros. Criam desenvolvimento... oportunidades de crescimento. No início dos anos 70, os insucessos do paquete Funchal (com uma série de avarias), da própria Insulana, a queda do Estado Novo e a desorientação da marinha mercante portuguesa, conduziram ao fim da carreira de passageiros para as ilhas. Infelizmente, só o desastre aéreo de Novembro de 1977, no aeroporto da Madeira, fez com que o paquete Niassa ainda fizesse ligações para o Funchal, terminadas alguns meses depois.
Teria todo este cenário sido diferente caso a opção da Insulana, quando encomendou o Funchal, tivesse sido por um navio ferry, o que chegou a ser considerado? Teria sido a grande revolução no transporte marítimo para as ilhas? Haveria hoje um ferry português de nome Funchal? Um terceiro ou quarto navio com o nome da capital madeirense? Certamente que sim, mas não foi essa a história. Se assim fosse, estariamos hoje a celebrar largos anos de ligações marítimas de passageiros com o continente. O destino assim não quis, ou melhor, assim não foi a vontade política e de armadores. Quem sabe num futuro haja outro navio Funchal, moderno, útil ao arquipélago e ao país de origem. Para já resta recordar e acreditar num futuro para o actual Funchal, o que não parece fácil. Bem haja o paquete Funchal e quem o manteve este anos. Leia-se o senhor Potamianos, falecido este ano. Bem haja ao Clube de Entusiastas de Navios por continuar a desenvolver a sua actividade em prol da razão do seu nascimento há quase 20 anos.

Luís Filipe Jardim / Editor revista Cruzeiros

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